A Saga do Diesel Aeronáutico: Da Thielert à Continental
- jcarlosperuca

- há 3 dias
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A trajetória do motor CD-155 (e de seu antecessor, o Centurion 2.0) é uma das "novelas" industriais mais fascinantes da aviação geral moderna. Ela envolve engenharia alemã audaciosa, escândalos corporativos, falências e, finalmente, o resgate por um gigante global.
A história deste motor é, essencialmente, a história da tentativa de trazer a eficiência dos motores a diesel automotivos modernos para a aviação.
1. A Gênese: O Coração Mercedes (Fim dos anos 90)
No final da década de 1990, Frank Thielert, fundador da Thielert Aircraft Engines (TAE) na Alemanha, percebeu que a tecnologia common rail automotiva havia amadurecido. Ele não tentou reinventar a roda; ele olhou para a indústria automobilística.
A Base: A Thielert escolheu o motor Mercedes-Benz OM668, um bloco de 1.7 litros turbodiesel de 4 cilindros usado no Mercedes Classe A (W168).
A Adaptação: A TAE pegou esse bloco automotivo robusto (produzido em massa aos milhões) e o "aeronautizou". Isso envolveu criar uma caixa de redução (gearbox) complexa, um sistema FADEC redundante e adaptar o sistema elétrico para os padrões de certificação aeronáutica.
O Primeiro Sucesso: Nasceu o Centurion 1.7. A Diamond Aircraft foi a parceira chave, lançando o DA40 e o bimotor DA42 com esses motores. O mercado ficou em polvorosa com a promessa de queimar Jet-A1 (muito mais barato que AvGas na Europa) com um consumo irrisório.
2. A Evolução e o Colapso (2002 - 2008)
O Centurion 1.7 evoluiu para o Centurion 2.0 (aumentando a cilindrada para quase 2.0 litros para mais confiabilidade) e depois para o Centurion 2.0S (a versão de 155 hp que hoje conhecemos como CD-155).
No entanto, a tempestade estava se formando:
Problemas Técnicos: Os primeiros motores sofriam com problemas na caixa de redução e na embreagem, exigindo inspeções constantes (a cada 300 ou 600 horas) que irritavam os operadores.
O Escândalo: Em 2008, a Thielert AG colapsou. Surgiram alegações de fraude financeira e inflação de valores da empresa. Frank Thielert foi afastado, e a empresa declarou insolvência.
O Pesadelo dos Operadores: De uma hora para outra, escolas de aviação e donos de Diamond DA42 ficaram "órfãos". A garantia de peças sumiu, e a produção parou. Foi um período sombrio onde a confiança no motor diesel aeronáutico foi severamente abalada.
3. O Resgate Estratégico (2013)
Durante cinco anos, a empresa operou sob administração judicial ("life support"), mantendo o básico para a frota existente não parar de voar completamente.
Em julho de 2013, a Continental Motors (então já adquirida pela chinesa AVIC International) viu uma oportunidade de ouro. A AVIC sabia que o mercado asiático e africano precisava de aviões a pistão que não dependessem de AvGas (que é raro nessas regiões), mas sim de querosene.
A Compra: A Continental adquiriu os ativos da Thielert Aircraft Engines.
Technify Motors: Foi criada uma subsidiária na Alemanha chamada Technify Motors GmbH para continuar a produção e desenvolvimento, agora sob o guarda-chuva financeiro e logístico da Continental.
4. O Renascimento como "Continental CD-155"
A Continental fez um movimento inteligente de rebranding e suporte:
Mudança de Nome: O nome "Thielert" e "Centurion", manchados pela falência, foram gradualmente substituídos pela nomenclatura Continental CD (Continental Diesel). O Centurion 2.0S virou o CD-155.
Foco na Confiabilidade: A Continental investiu pesado para resolver os gargalos de manutenção. Eles conseguiram estender o TBR (Time Between Replacement) do motor para 2.100 horas e melhoraram a durabilidade da caixa de redução, trazendo a paz de espírito de volta aos operadores.
Padronização: Hoje, o CD-155 é o padrão de ouro em motores diesel leves, equipando a frota global de treinamento da Diamond e sendo a base para o desenvolvimento de motores maiores (como o CD-300 de 6 cilindros).
Características técnicas do motor:
O motor Continental CD-155 (anteriormente conhecido como Centurion 2.0S sob a Thielert) é uma peça de engenharia moderna que se destaca por utilizar o ciclo Diesel e queimar querosene de aviação (Jet-A1) em vez de AvGas.
Isso altera fundamentalmente a operação da aeronave, oferecendo maior eficiência térmica e simplificação de gerenciamento (monomanete) graças ao sistema eletrônico.
Abaixo, detalho as especificações técnicas, características de projeto e dados operacionais.
1. Ficha Técnica Resumida
Parâmetro | Especificação |
Tipo | 4 cilindros em linha, 4 tempos, DOHC (duplo comando) |
Ciclo | Diesel (ignição por compressão) |
Deslocamento | 1.991 cm³ (aprox. 122 pol³) |
Potência Máxima | 155 hp (114 kW) a 2300 RPM (na hélice) |
Torque Máx. (Hélice) | 473 Nm (349 ft.lb) |
Taxa de Compressão | 18.0:1 |
Peso Seco | Aprox. 134 kg (295 lbs) - inclui caixa de redução |
Combustível | Jet-A, Jet-A1, Diesel (EN 590) |
Consumo (Cruzeiro) | Aprox. 18,5 a 25 litros/hora (em economia/cruzeiro) |
2. Diferenciais de Design e Engenharia
Diferente dos motores aeronáuticos tradicionais (como Lycoming ou Continental "AvGas" refrigerados a ar), o CD-155 possui características automotivas adaptadas para aviação:
Refrigeração Líquida: O motor não sofre com choque térmico em descidas rápidas (comum em motores refrigerados a ar). Isso permite tolerâncias de construção mais justas e maior eficiência.
FADEC (Full Authority Digital Engine Control): Todo o gerenciamento da injeção e do passo da hélice é feito por computador. Não há manete de mistura nem de passo de hélice. O piloto opera uma alavanca única (Single Lever Power Control).
Benefício: O FADEC protege o motor contra operação fora dos limites (overboost, overspeed).
Turbocompressor e Intercooler: O sistema mantém a potência de 155 hp constante até níveis de voo elevados (aprox. 6.000 a 9.000 pés, dependendo da instalação), diferente de motores aspirados que perdem potência na decolagem em dias quentes ou aeroportos altos.
Caixa de Redução (Gearbox): Como motores diesel operam em rotações mais altas (o virabrequim gira perto de 3900 RPM na potência máxima), existe uma caixa de redução com razão de 1:1.69 para manter a hélice em eficientes 2300 RPM.
Nota Técnica: A caixa de redução possui uma embreagem para absorver picos de torque e proteger a hélice.
3. Manutenção e Vida Útil (TBR)
Um ponto crítico sobre a série CD (Continental Diesel) é que, diferentemente dos motores tradicionais que possuem um TBO (Time Between Overhaul - Tempo Entre Revisão Geral), o CD-155 opera sob o conceito de TBR (Time Between Replacement).
TBR: Atualmente estendido para 2.100 horas (ou 12 anos).
Significado: Ao atingir esse limite, o motor geralmente não é "retificado" em uma oficina local; ele é substituído por uma unidade nova ou remanufaturada de fábrica, garantindo que todos os componentes críticos (como o sistema de injeção Common Rail de alta pressão) estejam perfeitos.
Trocas programadas: A caixa de redução (gearbox) pode ter intervalos de inspeção/troca diferentes do bloco do motor, dependendo do uso e das diretrizes de manutenção atuais.
4. Aplicações Comuns
Este motor é popular tanto em aeronaves novas quanto em retrofits (substituição de motores antigos):
Diamond DA40 NG e DA42: As plataformas mais famosas para este motor.
Cessna 172 (Retrofit): Transforma o Cessna num avião capaz de voar até 7-8 horas com tanques cheios.
Piper Archer DX: Versão diesel de fábrica.
Glasair Sportsman e Vans RV-9: Aviação experimental.
Veredito Técnico
O CD-155 é ideal para operadores que voam muitas horas por ano (escolas de aviação, táxi aéreo leve) onde a economia de combustível (queima cerca de 30-40% menos volume que um motor a gasolina equivalente) e o custo mais baixo do querosene Jet-A1 compensam o custo de substituição do motor (TBR).
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