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A Saga do Diesel Aeronáutico: Da Thielert à Continental

A trajetória do motor CD-155 (e de seu antecessor, o Centurion 2.0) é uma das "novelas" industriais mais fascinantes da aviação geral moderna. Ela envolve engenharia alemã audaciosa, escândalos corporativos, falências e, finalmente, o resgate por um gigante global.


A história deste motor é, essencialmente, a história da tentativa de trazer a eficiência dos motores a diesel automotivos modernos para a aviação.


1. A Gênese: O Coração Mercedes (Fim dos anos 90)

No final da década de 1990, Frank Thielert, fundador da Thielert Aircraft Engines (TAE) na Alemanha, percebeu que a tecnologia common rail automotiva havia amadurecido. Ele não tentou reinventar a roda; ele olhou para a indústria automobilística.

  • A Base: A Thielert escolheu o motor Mercedes-Benz OM668, um bloco de 1.7 litros turbodiesel de 4 cilindros usado no Mercedes Classe A (W168).

  • A Adaptação: A TAE pegou esse bloco automotivo robusto (produzido em massa aos milhões) e o "aeronautizou". Isso envolveu criar uma caixa de redução (gearbox) complexa, um sistema FADEC redundante e adaptar o sistema elétrico para os padrões de certificação aeronáutica.

  • O Primeiro Sucesso: Nasceu o Centurion 1.7. A Diamond Aircraft foi a parceira chave, lançando o DA40 e o bimotor DA42 com esses motores. O mercado ficou em polvorosa com a promessa de queimar Jet-A1 (muito mais barato que AvGas na Europa) com um consumo irrisório.


2. A Evolução e o Colapso (2002 - 2008)

O Centurion 1.7 evoluiu para o Centurion 2.0 (aumentando a cilindrada para quase 2.0 litros para mais confiabilidade) e depois para o Centurion 2.0S (a versão de 155 hp que hoje conhecemos como CD-155).

No entanto, a tempestade estava se formando:

  • Problemas Técnicos: Os primeiros motores sofriam com problemas na caixa de redução e na embreagem, exigindo inspeções constantes (a cada 300 ou 600 horas) que irritavam os operadores.

  • O Escândalo: Em 2008, a Thielert AG colapsou. Surgiram alegações de fraude financeira e inflação de valores da empresa. Frank Thielert foi afastado, e a empresa declarou insolvência.

  • O Pesadelo dos Operadores: De uma hora para outra, escolas de aviação e donos de Diamond DA42 ficaram "órfãos". A garantia de peças sumiu, e a produção parou. Foi um período sombrio onde a confiança no motor diesel aeronáutico foi severamente abalada.


3. O Resgate Estratégico (2013)

Durante cinco anos, a empresa operou sob administração judicial ("life support"), mantendo o básico para a frota existente não parar de voar completamente.

Em julho de 2013, a Continental Motors (então já adquirida pela chinesa AVIC International) viu uma oportunidade de ouro. A AVIC sabia que o mercado asiático e africano precisava de aviões a pistão que não dependessem de AvGas (que é raro nessas regiões), mas sim de querosene.

  • A Compra: A Continental adquiriu os ativos da Thielert Aircraft Engines.

  • Technify Motors: Foi criada uma subsidiária na Alemanha chamada Technify Motors GmbH para continuar a produção e desenvolvimento, agora sob o guarda-chuva financeiro e logístico da Continental.


4. O Renascimento como "Continental CD-155"

A Continental fez um movimento inteligente de rebranding e suporte:

  1. Mudança de Nome: O nome "Thielert" e "Centurion", manchados pela falência, foram gradualmente substituídos pela nomenclatura Continental CD (Continental Diesel). O Centurion 2.0S virou o CD-155.

  2. Foco na Confiabilidade: A Continental investiu pesado para resolver os gargalos de manutenção. Eles conseguiram estender o TBR (Time Between Replacement) do motor para 2.100 horas e melhoraram a durabilidade da caixa de redução, trazendo a paz de espírito de volta aos operadores.

  3. Padronização: Hoje, o CD-155 é o padrão de ouro em motores diesel leves, equipando a frota global de treinamento da Diamond e sendo a base para o desenvolvimento de motores maiores (como o CD-300 de 6 cilindros).


Características técnicas do motor:


O motor Continental CD-155 (anteriormente conhecido como Centurion 2.0S sob a Thielert) é uma peça de engenharia moderna que se destaca por utilizar o ciclo Diesel e queimar querosene de aviação (Jet-A1) em vez de AvGas.


Isso altera fundamentalmente a operação da aeronave, oferecendo maior eficiência térmica e simplificação de gerenciamento (monomanete) graças ao sistema eletrônico.


Abaixo, detalho as especificações técnicas, características de projeto e dados operacionais.


1. Ficha Técnica Resumida

Parâmetro

Especificação

Tipo

4 cilindros em linha, 4 tempos, DOHC (duplo comando)

Ciclo

Diesel (ignição por compressão)

Deslocamento

1.991 cm³ (aprox. 122 pol³)

Potência Máxima

155 hp (114 kW) a 2300 RPM (na hélice)

Torque Máx. (Hélice)

473 Nm (349 ft.lb)

Taxa de Compressão

18.0:1

Peso Seco

Aprox. 134 kg (295 lbs) - inclui caixa de redução

Combustível

Jet-A, Jet-A1, Diesel (EN 590)

Consumo (Cruzeiro)

Aprox. 18,5 a 25 litros/hora (em economia/cruzeiro)

2. Diferenciais de Design e Engenharia

Diferente dos motores aeronáuticos tradicionais (como Lycoming ou Continental "AvGas" refrigerados a ar), o CD-155 possui características automotivas adaptadas para aviação:

  • Refrigeração Líquida: O motor não sofre com choque térmico em descidas rápidas (comum em motores refrigerados a ar). Isso permite tolerâncias de construção mais justas e maior eficiência.

  • FADEC (Full Authority Digital Engine Control): Todo o gerenciamento da injeção e do passo da hélice é feito por computador. Não há manete de mistura nem de passo de hélice. O piloto opera uma alavanca única (Single Lever Power Control).

    • Benefício: O FADEC protege o motor contra operação fora dos limites (overboost, overspeed).

  • Turbocompressor e Intercooler: O sistema mantém a potência de 155 hp constante até níveis de voo elevados (aprox. 6.000 a 9.000 pés, dependendo da instalação), diferente de motores aspirados que perdem potência na decolagem em dias quentes ou aeroportos altos.

  • Caixa de Redução (Gearbox): Como motores diesel operam em rotações mais altas (o virabrequim gira perto de 3900 RPM na potência máxima), existe uma caixa de redução com razão de 1:1.69 para manter a hélice em eficientes 2300 RPM.

    • Nota Técnica: A caixa de redução possui uma embreagem para absorver picos de torque e proteger a hélice.


3. Manutenção e Vida Útil (TBR)

Um ponto crítico sobre a série CD (Continental Diesel) é que, diferentemente dos motores tradicionais que possuem um TBO (Time Between Overhaul - Tempo Entre Revisão Geral), o CD-155 opera sob o conceito de TBR (Time Between Replacement).

  • TBR: Atualmente estendido para 2.100 horas (ou 12 anos).

  • Significado: Ao atingir esse limite, o motor geralmente não é "retificado" em uma oficina local; ele é substituído por uma unidade nova ou remanufaturada de fábrica, garantindo que todos os componentes críticos (como o sistema de injeção Common Rail de alta pressão) estejam perfeitos.

  • Trocas programadas: A caixa de redução (gearbox) pode ter intervalos de inspeção/troca diferentes do bloco do motor, dependendo do uso e das diretrizes de manutenção atuais.


4. Aplicações Comuns

Este motor é popular tanto em aeronaves novas quanto em retrofits (substituição de motores antigos):

  • Diamond DA40 NG e DA42: As plataformas mais famosas para este motor.

  • Cessna 172 (Retrofit): Transforma o Cessna num avião capaz de voar até 7-8 horas com tanques cheios.

  • Piper Archer DX: Versão diesel de fábrica.

  • Glasair Sportsman e Vans RV-9: Aviação experimental.


Veredito Técnico

O CD-155 é ideal para operadores que voam muitas horas por ano (escolas de aviação, táxi aéreo leve) onde a economia de combustível (queima cerca de 30-40% menos volume que um motor a gasolina equivalente) e o custo mais baixo do querosene Jet-A1 compensam o custo de substituição do motor (TBR).


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